Nota: este conteúdo é educacional e não substitui a orientação de um contador ou consultor financeiro habilitado. Decisões fiscais, contábeis e de crédito devem ser tomadas com um profissional que conheça os números reais do seu negócio.
Vou começar com a pergunta mais incômoda que existe.
Você abre seu app do banco. O saldo está em R$ 47.300. Você respira aliviado. Mês fechado, conta pagou, sobrou. Sua empresa está bem.
Agora a verdade: você tem ideia de quanto a sua empresa lucrou no mês passado?
Não é uma pegadinha. É a pergunta que separa empresário que cresce de empresário que vai quebrar nos próximos 18 meses sem perceber.
Porque saldo bancário não é lucro. Saldo bancário é o que sobrou na conta DEPOIS de você ter recebido um adiantamento de cliente que você ainda vai entregar, DEPOIS de você ter deixado boletos pra próxima semana, DEPOIS de você ter atrasado o pró-labore, DEPOIS de pegar emprestado da poupança pessoal pra cobrir furo. Saldo bancário é o nível de água no copo. Não te diz nada sobre se está entrando mais água do que está saindo.
A ferramenta que te diz isso se chama DRE. E 9 em cada 10 empresários PME no Brasil não sabem ler o próprio DRE.
PME = Pequena e Média Empresa. É como o mercado chama negócios que faturam entre R$ 360 mil e R$ 300 milhões por ano. Se você fatura entre isso, esse texto é pra você, e provavelmente pro seu vizinho de bairro também.
Esse texto é pra você que ouve “DRE”, “EBITDA”, “capital de giro” em reunião com contador e finge que entende. Sem julgamento, quase ninguém aprende isso. Vamos do zero, com exemplos visuais, empresa fictícia que se chama Cafeteria do Pedro, e comparação lado a lado entre quem cresce e quem quebra.
No fim do texto, você vai conseguir abrir o relatório do seu contador e fazer perguntas que ele provavelmente nunca te ouviu fazer.
A diferença entre olhar pra balança e olhar pro espelho
Quando você quer saber se está saudável, você usa duas ferramentas: balança e espelho.
A balança diz quanto você pesa. Útil, mas limitada. Você pode pesar 75 kg de músculo ou 75 kg de gordura, a balança não diferencia. Atleta pesado fica “obeso” na tabela de IMC.
O espelho mostra a composição. Postura, percentual de gordura visível, edema, cor da pele, brilho do olho. Diagnóstico real.
Saldo bancário é a balança. DRE é o espelho.
Você pode ter R$ 47.300 na conta porque um cliente grande pagou adiantado um projeto que ainda vai consumir R$ 80.000 de custo nos próximos meses. Saldo alto, empresa quebrando, só não dá pra ver olhando pra balança. Tem que olhar pro espelho.
O que é DRE, sem rodeio
DRE significa Demonstrativo de Resultado do Exercício. Nome assustador, função simples:
DRE é um documento que mostra, em ordem, tudo o que entrou na empresa, tudo o que saiu, e o que sobrou de verdade num período (mês, trimestre, ano).
É uma “extrato organizado”. Em vez de jogar tudo num lugar só, ele separa por categoria, pra você ver onde está o dinheiro.
Vou montar um exemplo agora. Cafeteria do Pedro, mês de junho de 2026. Cafeteria fictícia, mas com números realistas de uma operação pequena de São Paulo.
DRE da Cafeteria do Pedro. Junho/2026
| Linha | Descrição | Valor (R$) | % da Receita |
|---|---|---|---|
| 1 | Receita Bruta (tudo que faturou) | 80.000 | 100% |
| 2 | (–) Impostos sobre vendas | (12.000) | 15% |
| 3 | = Receita Líquida | 68.000 | 85% |
| 4 | (–) CMV (custo do café, leite, pão, embalagem) | (22.000) | 27,5% |
| 5 | = Lucro Bruto | 46.000 | 57,5% |
| 6 | (–) Aluguel | (8.000) | 10% |
| 7 | (–) Folha (3 funcionários + pró-labore Pedro) | (18.000) | 22,5% |
| 8 | (–) Energia, água, internet | (2.000) | 2,5% |
| 9 | (–) Marketing (Instagram ads + flyer) | (2.000) | 2,5% |
| 10 | (–) Contador e taxas | (1.000) | 1,25% |
| 11 | (–) Outras despesas (limpeza, manutenção) | (1.000) | 1,25% |
| 12 | = EBITDA | 14.000 | 17,5% |
| 13 | (–) Depreciação (máquinas + móveis, ajuste contábil) | (2.000) | 2,5% |
| 14 | (–) Juros do financiamento da reforma | (3.000) | 3,75% |
| 15 | (–) IR e CSLL | (2.000) | 2,5% |
| 16 | = LUCRO LÍQUIDO | R$ 7.000 | 8,75% |
Pronto. Esse é um DRE. Tudo o que existe num DRE de qualquer empresa do mundo, do MEI ao Itaú, segue essa estrutura. O que muda é o tamanho dos números.
Agora vou explicar linha por linha o que cada um significa em português claro.
DRE linha por linha (sem jargão)
Linha 1. Receita Bruta: Soma de tudo que a Cafeteria do Pedro faturou no mês. Café vendido, salgado, marmita, sanduíche, festa de aniversário fechada num sábado. Tudo somado: R$ 80 mil.
🚨 Erro clássico: Pedro olha esse número e fala “estou faturando 80 mil por mês”. E acha que esse é o dinheiro dele. Não é. É o início da história.
Linha 2. Impostos: O governo come primeiro. ICMS, PIS, COFINS (ou Simples Nacional, no caso de empresa do Pedro). 15% saem na primeira mordida. Antes do dinheiro chegar de fato na conta da empresa.
Linha 3. Receita Líquida: R$ 68 mil. Esse é o dinheiro que a empresa de fato recebeu pra usar.
Linha 4. CMV (Custo da Mercadoria Vendida): O que custou pra Pedro produzir o que vendeu. Grãos de café, leite, pão fresco, embalagem de copo, açúcar. Tudo que vira o produto final. R$ 22 mil. Equivale a 27,5% da receita bruta, proporção típica de cafeteria.
💡 Por que CMV importa: se Pedro começa a comprar café pior pra economizar e o cliente percebe, ele perde venda. Se compra café muito bom mas paga caro demais sem repassar no preço, ele come a margem. CMV bem gerenciado = compra inteligente + preço de venda inteligente.
Linha 5. Lucro Bruto: R$ 46 mil. É o quanto sobra DEPOIS de ter pago o “custo do café” propriamente dito. Margem bruta da cafeteria do Pedro é 57,5%: significa que de cada real que entra, 57 centavos sobram pra cobrir o resto.
Linhas 6-11. SG&A (despesas): Tudo que mantém a estrutura rodando mas não é diretamente o custo do café. Aluguel, folha, energia, marketing, contador. Junto, R$ 32 mil. Equivale a 40% da receita bruta, alto, mas típico de operação pequena que ainda não escalou.
⚠️ Sinal de alerta: Se o SG&A passa de 50% da receita bruta numa PME, tem coisa errada. Ou a estrutura está grande demais pra venda, ou tem despesa duplicada/inflada que ninguém revisou.
Linha 12. EBITDA: R$ 14 mil. Esse é o número mais importante do DRE. Vou explicar com calma na próxima seção.
Linha 13. Depreciação: Quando Pedro comprou a máquina de café e os móveis, gastou de uma vez. Mas a contabilidade “dilui” esse custo ao longo de vários anos. Não sai dinheiro nesse mês, é só ajuste no papel. Por isso EBITDA ignora.
Linha 14. Juros: Pedro pegou empréstimo de R$ 80 mil pra reformar a cafeteria há 2 anos. Paga R$ 3 mil/mês de juros e amortização (parte é juros, parte amortiza o principal). Aqui só conta a parte de juros.
Linha 15. IR e CSLL: O governo come o pedaço final do que sobrou de lucro. Pedro está no Simples, então paga junto com os outros impostos, mas pro DRE faz sentido separar.
Linha 16. Lucro Líquido: R$ 7 mil. Esse é o dinheiro real que ficou pra Pedro depois de pagar TUDO. Margem líquida de 8,75%, saudável pra cafeteria pequena no Brasil de 2026.
A pergunta que muda tudo: Pedro está ganhando dinheiro?
Olha de novo o saldo do banco: R$ 47.300. Olha o lucro do mês: R$ 7.000.
Por que tem tanto dinheiro na conta?
Resposta: porque o saldo da conta acumula meses anteriores, antecipações de cliente, pagamentos atrasados de fornecedor, e Pedro ainda não tirou o pró-labore do mês. O saldo bancário é a balança. Confunde quem olha desavisado.
O lucro líquido é o espelho. Mostra que, de tudo que entrou em junho, sobrou R$ 7.000 pra Pedro. Esse é o número que decide se a Cafeteria do Pedro tem futuro.
E é esse número que Pedro nunca olhou na vida.
EBITDA: o motor da empresa
Voltando à linha 12. R$ 14.000. EBITDA.
Sigla horrível, conceito útil. Significa Lucro Antes de Juros, Impostos sobre Lucro, Depreciação e Amortização (em inglês: Earnings Before Interest, Taxes, Depreciation and Amortization).
Tradução prática: EBITDA é o quanto a operação da empresa gera de dinheiro, antes de mexer com banco, governo e ajuste contábil.
Por que isso é o número mais importante do DRE? Porque ele isola uma coisa só: a saúde do motor.
Imagina dois carros do mesmo modelo, mesmo ano. Um deles está sendo financiado e paga 3% de juros ao mês. O outro foi à vista. Os dois têm motor idêntico, consomem o mesmo combustível, andam a mesma velocidade.
O segundo carro vai parecer “mais econômico” porque não tem parcela. Mas o motor é igual. Se você quer saber qual MOTOR é melhor, ignora a parcela.
EBITDA é o motor da empresa. Lucro líquido é o motor + a parcela + o IPVA + a depreciação. Misturado, fica difícil saber onde está o problema.
Exemplo numérico: dois Pedros
| Cafeteria do Pedro (atual) | Cafeteria do Pedro (alternativa) | |
|---|---|---|
| Receita Bruta | R$ 80.000 | R$ 80.000 |
| Receita Líquida | R$ 68.000 | R$ 68.000 |
| CMV | (22.000) | (22.000) |
| Lucro Bruto | 46.000 | 46.000 |
| SG&A | (32.000) | (32.000) |
| EBITDA | 14.000 (17,5%) | 14.000 (17,5%) |
| Depreciação | (2.000) | (2.000) |
| Juros (financiamento reforma) | (3.000) | (0) já quitou |
| IR/CSLL | (2.000) | (2.000) |
| Lucro Líquido | R$ 7.000 | R$ 10.000 |
Mesma operação. Mesmo motor. Lucro líquido diferente. O segundo Pedro não é um operador melhor, ele só quitou a dívida.
Se Pedro entendeu isso, ele sabe que não precisa “vender mais” pra crescer o lucro líquido. Precisa renegociar a dívida ou esperar acabar. O motor da operação está OK. O problema é financeiro, não operacional.
Sem EBITDA, ele ia ficar tentando vender mais café num mercado saturado, queimando energia atrás de venda quando o problema estava em outro lugar.
A história das duas cafeterias
Agora a comparação que importa. Duas cafeterias no mesmo bairro, mesmo público, mesmo faturamento.
| Linha | Cafeteria do Pedro | Cafeteria da Maria |
|---|---|---|
| Receita Bruta | 80.000 | 80.000 |
| Impostos | (12.000) | (12.000) |
| Receita Líquida | 68.000 | 68.000 |
| CMV | (22.000) = 27,5% | (34.000) = 42,5% |
| Lucro Bruto | 46.000 (57,5%) | 34.000 (42,5%) |
| SG&A | (32.000) = 40% | (38.000) = 47,5% |
| EBITDA | 14.000 (17,5%) | (4.000) NEGATIVO |
| Depreciação | (2.000) | (3.000) |
| Juros | (3.000) | (6.000) |
| IR/CSLL | (2.000) | 0 prejuízo |
| Lucro Líquido | R$ 7.000 | R$ (13.000) |
Mesmo faturamento. Resultados opostos.
A Cafeteria da Maria está perdendo R$ 13 mil por mês. Mas o saldo do banco dela ainda está em R$ 38 mil: porque ela está pegando empréstimos pra cobrir, atrasando fornecedor, e ainda recebeu antecipação do festival de café que vai entregar mês que vem.
Maria olha o saldo, fala “estamos OK, dá pra segurar”. Em 6 meses, ela quebra.
Pedro olha o DRE, vê EBITDA de 17,5% e lucro líquido de 8,75%, e sabe que está numa cafeteria saudável. Pode pensar em abrir uma segunda unidade.
O que está errado na Maria
Olha o DRE dela com atenção. Duas linhas explicam tudo:
1) CMV de 42,5% (vs 27,5% do Pedro). Maria compra café no atacadista errado e dá desconto demais pra cliente. Cada copo de café que ela vende, leva 42 centavos só pra cobrir o custo do café, antes de pagar funcionário, aluguel, nada.
2) SG&A de 47,5% (vs 40% do Pedro). Maria contratou 5 funcionários quando 3 dariam conta. Aluga um ponto premium que ela não precisava. Gasta o dobro em marketing porque “tem que aparecer”.
Resultado: EBITDA negativo. A operação dela não gera caixa. Ela está vivendo de dívida e antecipação.
Pedro pode estar com lucro líquido modesto, mas o motor dele funciona. Maria tem o motor quebrado, e o saldo bancário está mascarando o problema.
Isso é o que o DRE te mostra que o saldo bancário esconde.
Caixa é sintoma, não problema
Existe uma frase que resume bem isso, e vale gravar:
Caixa nunca é o problema. Caixa é sintoma de uma cadeia de coisas que aconteceram antes.
Quando o caixa esvazia, você não está num problema novo. Está vendo a primeira evidência clínica de uma doença que já estava rodando há meses dentro da empresa.
A causa pode ser:
- Venda mal precificada (você fez o orçamento errado e está vendendo no prejuízo sem ver)
- CMV inflado sem revisão (fornecedor subiu, você não passou pro cliente)
- Desconto excessivo (vendedor está fechando negócio dando 25% de desconto que estraga a margem)
- Despesa fixa que cresceu sem receita acompanhar (contratou demais, alugou ponto caro)
- Cliente que paga em 90 dias mas você compra em 30 (descasamento de fluxo)
- Dívida cara cobrindo capital de giro (você pegou crédito de curto prazo pra pagar conta, mas não resolveu a causa)
Quando o caixa apita, o problema já estava acontecendo. Quem só olha pro saldo bancário descobre tarde demais.
Quem olha pro DRE todo mês descobre na hora.
Capital de giro: o erro mais clássico do empresário pequeno
Agora a sequência mais comum em PME que quebra.
Pedro abre a cafeteria. Investiu R$ 100 mil das economias. Nos primeiros 3 meses, mata-se trabalhando. No quarto mês, a cafeteria começa a faturar bem. O caixa enche.
Pedro olha o saldo: R$ 60 mil na conta. Pensa: “finalmente, dei a volta por cima. Vou trocar de carro.”
Compra um carro de R$ 45 mil. Saldo do banco cai pra R$ 15 mil.
O que Pedro fez foi tirar dinheiro do capital de giro da empresa. O dinheiro que estava na conta não era lucro dele, era dinheiro rodando pra pagar fornecedor, folha e aluguel do próximo mês.
Em 30 dias, chega a folha. Aluguel. Fornecedor cobrando. Saldo da conta agora insuficiente. Pedro pega um cheque especial. Quita o cheque especial com crédito pessoal. Quita o crédito pessoal com empréstimo da empresa. A cafeteria não estava quebrando. Pedro quebrou ela ao confundir caixa com lucro.
A regra de ouro do capital de giro
O dinheiro no caixa da empresa não é seu. É da operação. Você só pode tirar dali o que o DRE confirma como lucro líquido depois de fechar o mês. Antes disso, é capital trabalhando.
Quantos empresários PME quebraram comprando carro, casa, viagem com dinheiro do capital de giro? Quase todos os que quebraram.
”Quanto é uma boa margem?”
Pergunta que aparece toda hora. A resposta honesta: depende do setor.
Empresário sênior que olha DRE há décadas tem essa tabela de cabeça. Vai te servir como bússola:
| Setor | Margem operacional considerada boa | Por quê |
|---|---|---|
| Supermercado | 3-7% de lucro líquido | Volume altíssimo, ticket baixo, alta rotatividade |
| Comodity (aço, soja, papel) | EBITDA 15-20% | Preço definido pelo mercado, sem diferencial |
| Cafeteria / Restaurante | EBITDA 15-25% | Como o Pedro, saudável é dessa faixa |
| Cosmético / Industrial leve | Margem bruta 50-60% | Marca permite precificação alta |
| Serviços (consultoria, agência) | EBITDA 25-40% | Sem estoque, custo principal é mão de obra |
| Indústria com marca | EBITDA 20-30% | Cobre Capex e estoque, marca protege margem |
| Educação online / SaaS | Margem líquida 30-50% | Escala alta, custo marginal baixo |
E aí tem a regra geral do Brasil em 2026, que vale pra qualquer setor:
Com Selic em 15% ao ano, qualquer empresa com lucro líquido abaixo de 10% está em zona de risco perigosa. Porque um aumento de juros, um cliente que atrasa, ou uma promoção mal calculada e a empresa entra no negativo.
Isso é o que se chama “margem é proteção contra idiota”. Tradução: margem alta tolera erro. Margem baixa não.
Quando a empresa tem margem alta, dá pra ter problema, cometer besteira, contratar errado, gastar mal, e ela não quebra. Tem que fazer muita coisa errada pra quebrar uma empresa de margem alta.
Quando a empresa tem margem baixa, uma única besteira pequena leva pro negativo. Foi exatamente o que aconteceu com Banco Master, Grupo Pão de Açúcar, Americanas, Light e Rizen no biênio 2025-2026, todos entraram em recuperação judicial. Margem baixa, dívida alta, qualquer tropeço viraram RJ.
Dívida: você não está endividado, está mal estruturado
Tem um mito brasileiro perigoso. Dono fala com orgulho:
Minha empresa não deve nada. Nenhum centavo no banco.
E acha que isso é virtude. Não é necessariamente. Trabalhar com dinheiro de terceiro é, em muitos casos, mais saudável do que travar todo seu capital próprio. O que importa não é se você deve, é se a dívida cabe na sua geração de caixa.
A fórmula prática pra avaliar endividamento é:
Endividamento real = (Volume da dívida × tempo de pagamento) ÷ capacidade de geração de caixa
Vou ilustrar com Pedro novamente. Cafeteria do Pedro tem EBITDA de R$ 14.000/mês = R$ 168.000/ano.
| Cenário | Dívida total | Prazo de pagamento | Parcela mensal | É saudável? |
|---|---|---|---|---|
| A | R$ 100.000 | 12 meses | R$ 8.500 | NÃO: parcela come 60% do EBITDA |
| B | R$ 100.000 | 36 meses | R$ 3.300 | OK: parcela é 23% do EBITDA |
| C | R$ 100.000 | 60 meses | R$ 2.100 | ÓTIMO: parcela é 15% do EBITDA |
| D | R$ 300.000 | 60 meses | R$ 6.500 | OK: parcela 46%, mas dá pra crescer |
A mesma dívida de R$ 100 mil pode ser estrangulamento ou alavancagem saudável dependendo só do prazo. E uma dívida 3x maior pode ser mais saudável que uma dívida pequena com prazo apertado.
Dívida boa é a que financia crescimento e cabe no fluxo. Dívida ruim é a que cobre buraco de capital de giro sem entender a causa.
Tem empresário que fala: “só quero pagar 1% de juros”. Mas pega uma parcela mensal que ele não consegue pagar. Se a venda cair um pouquinho, ele tem que correr atrás de capital de giro de curto prazo, geralmente caríssimo. Faz mais sentido pegar uma taxa mais alta alongada que caiba no fluxo, do que uma taxa de 1% numa PMT impagável.
Como começar essa semana (sem complicar)
Você não precisa virar contador. Precisa começar a olhar pra 8 linhas do seu DRE todo mês. Esse é o vocabulário mínimo:
| Linha que você precisa olhar | Pergunta que ela responde |
|---|---|
| Receita Bruta | Quanto entrou? |
| CMV | Quanto custou o que vendi? |
| Lucro Bruto | Quanto sobrou de cada real vendido? |
| SG&A (despesas fixas) | Quanto custa minha estrutura? |
| EBITDA | Meu motor funciona? |
| Resultado financeiro (juros) | Quanto a dívida está me comendo? |
| Lucro Líquido | Sobrou alguma coisa pra mim? |
| Capital de giro disponível | Tenho dinheiro pra rodar o próximo mês? |
E aqui é como ler o eletrocardiograma do negócio: os três documentos juntos:
| Documento | O que mostra |
|---|---|
| DRE | O que aconteceu no mês (entrou, saiu, sobrou) |
| Fluxo de Caixa | Quando o dinheiro entrou/sai de fato (timing) |
| Balanço Patrimonial | Estado atual da empresa (o que tem, o que deve, quanto vale) |
Os três se falam. O DRE diz que você lucrou R$ 7 mil. O Fluxo de Caixa diz que você ainda não recebeu o cheque do maior cliente. O Balanço diz que seu estoque cresceu R$ 30 mil. Junto, te dão o diagnóstico completo.
Sozinhos, cada um conta meia história. Por isso a maioria do empresário PME só olha um (o saldo do banco, que é parte do fluxo de caixa) e fica cego pros outros dois.
A diferença entre quem cresce e quem quebra em 2026
Selic 15% é o juros mais alto do mundo desenvolvido em 2026. Empresa que não consegue pagar a Selic vai morrer, devagar, mas morre.
O biênio 2025-2026 foi o pior da história recente da economia brasileira em RJ: Banco Master, Grupo Pão de Açúcar, Americanas, Light, Rizen, e dezenas de empresas médias que não viraram manchete. Todas tinham um padrão comum:
- Tomaram crédito barato em 2021-2022 sem ajustar a estrutura
- Não monitoraram a margem mês a mês
- Confiaram no saldo bancário como termômetro
- Quando o caixa apitou, já estava tarde
A diferença entre essas empresas e as que continuam crescendo (Mercado Livre, Magazine Luiza no e-commerce direto, redes regionais de varejo, SaaS brasileiros de pequeno e médio porte) não é mercado. Não é sorte. É leitura de DRE mensal.
Você está agora exatamente nesse ponto de inflexão. Se você ler o DRE todo mês a partir desse mês, em 12 meses você é um empresário diferente. Vai ver problema antes dele aparecer. Vai ter conversa de igual com contador. Vai negociar dívida estruturada com banco. Vai precificar produto sabendo qual margem precisa proteger.
Se você continuar olhando só pro saldo do banco, em 12 meses pode ser você o próximo a entrar em RJ, só que sem viralizar no UOL, porque empresa pequena que quebra ninguém comenta.
A escolha é sua, e ela começa essa semana, abrindo o DRE do mês passado pela primeira vez.
📊 Quer aplicar isso hoje?
Montamos o template DRE Visual: planilha pronta com fórmulas automáticas, exemplo da Cafeteria do Pedro pré-preenchido e dashboard de indicadores que diagnostica sua saúde financeira em tempo real.
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Lição de casa
Quatro ações pra começar a entender seu DRE essa semana:
- Peça pro seu contador o DRE dos últimos 12 meses, em planilha. Não em PDF. Em Excel ou Google Sheets, porque você vai precisar mexer. Se ele não te enviar em 3 dias úteis, pense em trocar de contador (sério, esse é o serviço básico dele).
- Calcule sua margem bruta mês a mês. Fórmula: Lucro Bruto ÷ Receita Líquida × 100. Está caindo nos últimos meses? Estável? Subindo? Se está caindo, ou você está dando desconto demais, ou comprando mal, ou precificou errado. Não tem terceira causa.
- Calcule seu EBITDA mensal e compare com sua dívida. Some todas as parcelas mensais de dívida que você paga (banco + financiamento + fornecedor parcelado). Se a soma passa de 50% do EBITDA mensal, você está apertado. Se passa de 100%, você está em estado pré-RJ, alongue a dívida HOJE, não amanhã.
- Tire dinheiro da empresa SÓ do lucro líquido, não do saldo bancário. Se o lucro líquido do mês foi R$ 7 mil, você pode tirar até R$ 7 mil (ou menos, se quiser deixar caixa pra crescer). Saldo bancário acima disso fica na empresa, capital de giro. Essa única mudança de hábito salva mais empresas pequenas do que qualquer mentoria de R$ 50 mil.
A Tesseract atua reorganizando operação digital de PMEs, pipeline comercial, CRM, processo, dados. Mas operação digital saudável depende de fundação financeira saudável. Se você não lê DRE, qualquer crescimento que entregamos vai parar no capital de giro. Por isso esse vocabulário é a base.
Veja também: por que cobrar venda mata sua operação comercial ou o método de avaliar risco em decisões grandes.
Glossário
DRE
Demonstrativo de Resultado do Exercício. Documento contábil que mostra, em ordem, o que entrou e saiu da empresa num período. É a fotografia mais importante de saúde financeira, quem não lê DRE não administra empresa, só opera ela.
Fluxo de Caixa
Relatório que mostra quanto dinheiro entrou e saiu da empresa, dia a dia ou mês a mês. Diferente do DRE: DRE registra venda quando a nota é emitida; fluxo de caixa registra quando o dinheiro entra de verdade. É o que sobra na conta no fim do dia.
Balanço Patrimonial
Fotografia do que a empresa tem (ativos) e deve (passivos) num momento. Mostra estoque, conta a receber, imóveis, dívidas, capital social. O DRE conta o que aconteceu no período; o balanço conta o estado atual.
Eletrocardiograma do negócio
Apelido pros três exames financeiros (DRE + Fluxo de Caixa + Balanço) lidos juntos. Sozinhos, cada um conta meia história; juntos, mostram o estado real da empresa.
CMV / CSP
Custo da Mercadoria Vendida (varejo) ou Custo do Serviço Prestado (serviços). Tudo que custou pra produzir/entregar o que foi vendido. Não inclui despesas administrativas. Numa cafeteria, é café, leite, açúcar, copo. Numa consultoria, é o tempo do consultor no projeto.
SG&A
Selling, General & Administrative. Despesas administrativas, comerciais e gerais, tudo que não é diretamente custo do produto: aluguel, folha do back-office, marketing, contador, sistema, comissão. Em PME, geralmente é onde mora a gordura mais fácil de cortar.
EBITDA
Earnings Before Interest, Taxes, Depreciation and Amortization. Lucro antes de juros, impostos sobre lucro, depreciação e amortização. Medida mais limpa de saúde operacional, mostra quanto a empresa gera de caixa pela operação, independente da estrutura financeira ou tributária. É o motor da empresa.
Margem Bruta
Lucro Bruto ÷ Receita Líquida. Indicador mais importante de saúde comercial. Mede quanto sobra de cada real vendido depois de pagar o que custou produzir/comprar o que foi vendido. Caindo = problema de precificação, compra ou desconto excessivo.
Lucro Líquido
A última linha do DRE. O dinheiro que efetivamente ficou pra empresa depois de pagar TUDO, impostos, custos, despesas, juros, depreciação. É a partir desse número que se calcula dividendo, reinvestimento e remuneração do dono.
Capital de Giro
Dinheiro que a empresa precisa pra rodar o ciclo operacional, pagar fornecedor, folha, despesa fixa, enquanto espera o cliente pagar. Quanto mais a empresa cresce, mais capital de giro precisa. Misturar capital de giro com lucro pessoal é o caminho mais rápido pra quebra.
Markup
Fator multiplicador que se aplica ao custo pra chegar no preço de venda. Markup 10/12 = comprou por 10, vende por 120. Markup alto é sinal de marca forte ou nicho protegido. Markup baixo é sinal de comodity ou competição alta.
Recuperação Judicial (RJ)
Processo legal em que empresa endividada negocia com credores sob proteção da justiça. Não é falência, é tentativa de reorganizar antes de quebrar. 2025-2026 está sendo recorde histórico de RJs no Brasil: Banco Master, Pão de Açúcar, Americanas, Light, Rizen.
Pró-labore
Remuneração mensal do sócio que trabalha na empresa. É despesa pra empresa (entra no SG&A), mas é dinheiro pessoal do sócio. Diferente de dividendo, pró-labore é “salário do dono”, dividendo é “parte do lucro líquido”.
Selic
Taxa básica de juros da economia brasileira. Quando está alta (como os 15% de 2026), encarece todo o crédito do país, empresa com dívida sofre mais, empresa com caixa parado ganha mais investindo em renda fixa. É o termômetro econômico mais importante pra qualquer empresário entender.
PME
Pequena e Média Empresa. Classificação por faturamento anual usada pelo Sebrae e pelo BNDES. Pequena Empresa (EPP) fatura entre R$ 360 mil e R$ 4,8 milhões/ano; Média Empresa fatura entre R$ 4,8 milhões e R$ 300 milhões/ano. Acima disso vira “grande empresa”. Abaixo vira microempresa (ME) ou MEI. A maior parte dos negócios formalizados no Brasil cai nessa faixa.